UMA FÉ COM TRAJE DE FESTA

Uma noite, o escritor e missionário Pedro Gheddo deitou-se com uma ideia a referver-lhe na cabeça: Como falar de Deus a uma sociedade que tem tudo menos Deus? Não haverá uma forma penetrante, concreta, luminosa, de questionar os homens e as mulheres de hoje?
Adormeceu a custo. E sonhou então que, uma bela manhã, todos os cristãos, do jovem ao idoso, da mãe de família ao operário, do estudante ao gestor de empresas, todos, levantavam-se da cama, olhavam-se ao espelho e faziam este propósito: “Hoje vou dar um testemunho de alegria, dessa alegria que brota da fé como a água limpa da nascente”. Pelas ruas fora e pelos gabinetes, nos comércios e nas fábricas, nos transportes e na comunicação social, viam-se milhões de pessoas renovadas, sorridentes, capazes de dizer “bem haja”, cordiais, acolhedoras e humildes, abertas aos problemas das demais, dispostas a perdoar, a promover a justiça, a prestar um serviço…
Esses crentes faziam-se notar, tal era o contraste com a atitude habitual da multidão, e suscitavam interrogações: “Como é que estes homens e mulheres sorriem, estão contentes, são optimistas, comunicativos e amáveis, ao contrário de tanta gente que não faz senão queixar-se, maldizer a situação, espalhar azedume e desânimo à sua volta? De onde lhes vem a serenidade, a coragem, o encanto, a esperança, a humildade e a ternura?
A notícia fez as manchetes dos jornais e das revistas, as televisões entrevistavam aqueles homens e mulheres transbordantes de alegria. Até que enfim, os crentes tinham visibilidade e propunham uma “filosofia de vida” alternativa.
O sonho tem o perfume da ingenuidade como todos os sonhos. Assume-se, porém, como um desejo, um convite e um apelo a sairmos de nós mesmos, a esquecermos as nossas penas, a mostrarmos interesse pelos problemas dos demais, a sorrirmos com naturalidade e sem fingimento.
O filósofo anticristão, Frederico Niestche declarava com ar de desafio: “Eu até acreditaria que Jesus Cristo é o Salvador, como dizem os cristãos. Mas para isso, eles tinham de mostrar na cara que foram realmente salvos”.
Que é preciso para viver a fé com alegria?
Talvez se lembrem de Vittorio Messori, autor de “Hipóteses sobre Jesus”, um livro que vendeu milhões de cópias e foi traduzido em trinta línguas. Criado no seio duma família afastada da Igreja, Messori converteu-se, aos 23 anos, quando frequentava a Universidade de Turim e se debatia com terríveis dúvidas, para as quais só encontrou resposta na leitura do Evangelho. Relatou de este modo a sua experiência:
– “Não sei que impressão faça o Evangelho a quem se acostumou a bebê-lo com o leite materno. Talvez lhe falte o dom do espanto e o dom das lágrimas. Para mim era a primeira vez que pegava nesse livro sempre desprezado. Já tinha lido centenas de obras, procurando em vão uma palavra de sossego e de verdade em filósofos, políticos e outros mestres.
Naquele mês de Julho de 1964, ao ler pela primeira vez o Evangelho, estremeci, sobressaltei-me e desatei a chorar. Passava do assombro ao pranto, da emoção ao riso, da surpresa à vontade de gritar: Fiz uma descoberta! Jesus é verdadeiramente o único Salvador do mundo.
Imaginai o que significa ler pela primeira vez, com a frescura dum jovem que procura um sentido para a vida, o sermão das Bem-aventuranças. É o mundo virado de pernas para o ar. Não parava de repetir: Se Jesus é realmente o Filho de Deus, tudo se transfigura. A cultura moderna tem respostas sofisticadas para as necessidades penúltimas do ser humano, mas não para as últimas e definitivas. Só Cristo Salvador dá solução adequada a todas as expectativas e aspirações humanas”.
Eis o que nos falta: os olhos e o coração duma criança. A capacidade de se admirar, de se comover, de estrear cada manhã a estupenda certeza de que Deus nos ama, nos liberta. E de que só temos os irmãos para O amarmos.

Abílio Pina Ribeiro, cmf

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