FALTA DE TEMPO OU DE SERIEDADE?

Em certos casos da vida real aprende-se mais do que numa Universidade. Vou contar alguns.
Um menino de idade escolar perguntou ao pai, que chegava do trabalho:
– “Papá, quanto ganhas por hora?”
– “Vinte euros” – respondeu o pai, um tanto enfadado.
– “Então podes me dar dez euros?” – continuou o pequeno –.
– “Sempre me saíste muito egoísta! Farto-me de trabalhar e só pensas nos teus brinquedos. Pega lá os dez euros e deixa-me em paz”.
– “Não é isso, pai. É que eu já tenho dez euros e com mais dez fazem vinte. Posso comprar uma hora do teu tempo?”

A segunda história passa-se no dia em que a pequena Emília completa nove anos. Já com o vestido branco e os anéis penteados, dirige-se à cozinha esperando o grito de alegria que a sua mãe daria ao vê-la assim tão linda. Mas a mãe estava tão ocupada a preparar o bolo do aniversário que nem sequer ergueu os olhos.
– “Mamã, olha para mim – grita a criança -. Sou a tua filha que faz hoje nove anos”.
Mas nem assim a mãe olhou para ela, e apenas respondeu: “Já ouvi, princesa. Senta-te e toma o pequeno almoço”.
Insiste Emília: “Mamã, olha para a tua filha”.
Nem desta vez a mãe lhe ligou nada. E o mesmo fez o pai, ao chegar uns momentos depois, todo embebido nos seus negócios. A miúda trovejou então, lavada em lágrimas:
– “Por favor, que alguém se fixe em mim. Não preciso de bolo, nem de dinheiro, só quero que alguém olhe para mim!”
Coisas destas repetem-se amiúde. Os pais andam tão enredados em trabalhos pelos filhos que põem de lado os próprios filhos.

Gosto de rever o filme: “Sozinho em casa”. A primeira cena passa-se numa vivenda ampla e luxuosa dos Estados Unidos. Uma família numerosa prepara-se para sair de viagem no dia seguinte. Há malas, maletas e embrulhos espalhadas pela sala. Isolado a um canto, o filho mais novo vê a televisão.
Chega o pai e, sem quê nem para quê, manda-o desligar o televisor. O pequeno obedece contrafeito e vai para o quarto do irmão mais velho, batendo com a porta, mas logo o irmão lhe cai em cima com um raspanete de todo o tamanho. Daí a pouco sentam-se à mesa para cear. O pequeno está um tanto inquieto e caprichoso, e a mamã reage pondo-o de castigo: “A ver se nos deixas sossegados um instante”.
Tão sossegados os deixou que, no dia seguinte, sobem para o avião e se esquecem dele em casa. Tinham pensado em malas, maletas e embrulhos. Menos no garoto.
É por essas e por outras que uma menina inglesa de onze anos, em 1994, conseguiu autorização judicial para “se divorciar” da mãe… A esta mamã poder-se-ia dar um conselho: “Não perguntes à tua filha por que não te quer, pergunta-o a ti própria”.
Quando a actividade, o dinheiro, as diversões, as viagens, passam à frente do amor, da família, do próprio Deus, vem o desastre, a ruína.

“Não é o tempo que nos falta. Nós é que faltamos ao tempo” – dizia o francês Paul Claudel. Sei-o por experiência: mal consigo fugir à escravidão do relógio, do telefone, do calendário, da agenda, dos compromissos, dos recados, mas para o que me interessa arranjo sempre vagar. Para dar um passeio, se me apetece. Para ronronar como um gato diante da televisão. Para ver vinte e dois homens a correr atrás duma bola cheia de vento.
Mas para não “perder” tempo, não ando meia hora a pé, como me mandou o médico. Por falta de tempo, não consigo interromper o trabalho para visitar um doente ou para estar com a família e conversar com os amigos. Ou para fechar os olhos e orar nos silêncios da minha alma. Sempre com pressa, custa libertar-me do cansaço, da tensão, do nervosismo acumulado.
Uma vez o meu amigo Alexandre Fernández Barrajón escreveu que “o drama do nosso tempo talvez seja este: olhar sem ver, passar sem parar, caminhar sem avançar, ouvir sem escutar, ficar preso na teia de aranha do superficial, na casca das coisas, sem chegar ao centro onde está o melhor da semente”.
A nossa vida assemelha-se por vezes uma ambulância de pronto socorro. O stop, os semáforos, as paragens, parece não existirem no caminho. Em função do urgente, deixamos o mais importante. Que vale andar sempre a espumar como um cavalo de corrida, se nos esquecemos da mulher ou dos filhos, já para não falar de Deus? Que importa ganhar batalhas e conquistar províncias, se não implantarmos a paz e a ordem no próprio coração?
Dizia Ortega Y Gasset que a seriedade consiste em dispor as coisas em séries, a classificá-las por ordem de importância. É sério quem estabelece e respeita as prioridades.
Inverter a escala de valores equivale a viver de pernas para o ar. Andam no mundo muitas cabeças perdidas por esse motivo.

Abílio Pina Ribeiro, cmf

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