O MUNDO VISTO DE UM “MERCEDES”

Dizia bem a poetisa de Glória Fuertes:

“Aqueles que nada têm
dormem a sono solto
num banco, sob a ponte,
bebem na taberna,
dizem: Deus lhe pague,
coçam uma perna,
comem um tomate
e parecem profetas.
Mendigo é o que diz:
”E se Deus não existisse?”

Gunther Anders, prémio Nobel de literatura, conta uma história deliciosa: um pai super-carinhoso queria que o seu filho só andasse por caminhos batidos e seguros e não vagueasse à vontade pelos campos e povoados, não fosse ele partilhar o viver das outras pessoas e adquirir uma visão pessoal do mundo. Resolveu, então, oferecer-lhe um automóvel. “Agora já não precisas de andar a pé” – foram as suas palavras. “Agora já não permito que o faças” – era o que elas significavam. “Agora já não o podes fazer” – foi o seu efeito prático.

A parábola do sociólogo alemão traduz a maneira como são educados certos meninos e meninas que nasceram em berço de oiro. A sua vida lembra uma viagem de automóvel, onde as coisas se vêem apenas da janela e nunca se toca a realidade com as mãos.

E lá dizia o fundador do “Movimento para os sem-abrigo”, que o mundo parece bem diferente se for visto de cima duma bicicleta ou de dentro dum “Marcedes”…

Algumas crianças e jovens acostumaram-se a encarar a vida como um oceano de facilidades. Os pais, em vez de os ensinarem a percorrer as estradas comuns e difíceis, procuraram que eles encontrassem tudo feito, tudo dado: um mar de rosas.

E agora? Agora muitos desses jovens pensam que o dinheiro cai do céu, não valorizam nada do que têm, gastam sem critério nem responsabilidade, tornam-se incapazes de qualquer trabalho e sacrifício; alguns acabam mesmo por chafurdar no vício, no jogo, no álcool ou na droga.

Muitas “comodidades” que a sociedade da abundância e do consumo nos oferece não passam de escravidões dissimuladas. A verdadeira educação destina-se precisamente a tornar-nos livres e soberanos.

Tenho pena das pessoas que nunca subiram uma encosta a pé nem jamais sentiram a recompensa do próprio esforço. Sonhando talvez com flores sem espinhos ou com medalhas olímpicas sem suor, não empreendem nem conseguem coisa alguma.

Jovens provenientes de famílias pobres, onde lhes sobrou em carinho o que lhes faltou em dinheiro, vêem o mundo com humildade e realismo. Os que sempre andaram de “Mercedes” e nunca experimentaram a dureza da vida, agradecem menos as mãos-cheias de dinheiro do que o sem-abrigo o seu rebuçado.

Abilio Pina Ribeiro, cmf

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