Parece que muitos homens e mulheres de hoje, se tivessem de mudar de espécie, escolheriam ser pavões. O gozo que lhes dá abrir e desfraldar em leque o esplêndido e majestoso arco-íris da sua cauda! Até os mais sagrados momentos lhes servem para se exibirem, deixando à sua volta um rasto de espanto ou de inveja.
Lembro-me de uma noiva que estava a falar com um padre a respeito do seu casamento. De repente, ficou amarela e aflita. Motivo? Havia igreja para a cerimónia, havia padre, havia fotógrafo, havia restaurante, mas…faltava tinha-se esquecido de uma coisa: o carro que a devia transportar. O do seu pai não parecia adequado: não era um “Mercedes” de cor escura, não era uma “bomba”… não era chique…
A eucaristia, o sacramento, as promessas sagradas, pouco ou nada lhe importavam. O importante era o vestido, o automóvel, o tapete, o organista, as flores, as fotografias, o bolo de vários andares… e o “Mercedes” escuro com fitinhas brancas….
A primeira comunhão, para algumas crianças, marca a sua entrada solene na sociedade de consumo, na feira das vaidades. Sei de uns amigos que assistiram a uma festa dessas e vieram atordoados com o que ali viram. Imaginem a igreja, os candidatos alinhados em duas filhas: eles, fardados de almirantes, elas de princesas Uma menina, com o seu vestido azul, faixa branca e uma coroa singela na cabeça, destoava. Esta pelo menos – pensaram os presentes – sabe o que vai fazer”. Qual não foi o espanto deles quando, no preciso momento da comunhão, as lâmpadazinhas da coroa se acenderam e formaram a bendita frase: “Eu sou a Imaculada Conceição!”
Aquelas crianças, de maneira inconsciente mas real, recebiam de seus pais, naquele dia, estas lições medonhas: que o ter é mais importante do que o ser, e o receber mais importantes do que o dar; que a riqueza e a aparência constituem a melhor carta de recomendação; que a vida se constrói sobre areias e fumos de vaidade; que vale mais ser pavão do que pessoa.
Julgam que estou a inventar? Então oiçam outra. Uma senhora queria a toda a força que a sua filhota fizesse a Primeira Comunhão num determinado domingo. O pároco avisou-a de que a festa não se podia celebrar sem a devida catequese e que já não havia tempo. Longa discussão entre a senhora e o padre. Não conseguindo vencer a resistência deste, a senhora fulminou-o com a terrível ameaça: “Uma coisa lhe digo: a minha filha vai mesmo fazer a Primeira Comunhão. Nem que seja pelo civil”.
Dito e feito: no domingo aprazado, vestiu a menina de branco-pérola, enfiou-lhe na mão um rosário e um livrinho de orações, e celebrou-se festa rija, não na igreja, obviamente, mas num restaurante de luxo, com rolos de fotografias, filmagens, e festança até as tantas.
Estas coisas põem-me nervoso. Bem cedo começam as crianças a ler pela cartilha do possuir e do brilhar. Os pais tentam “ganhar” e “comprar” os filhos com materialidades, brinquedos, prendas, quando o que os filhos precisam é de espiritualidade, carinho, dedicação e, como suporte e garantia disso, tempo, o máximo de tempo. Os filhos precisam de amor e disciplina, ou seja, de campos balisados onde possam crescer livres e felizes.
Conhecem aquela parábola do escritor inglês Chesterton? Uma ilha no meio do mar bravo. Na ilha milhares de pessoas a cantar, a dançar, esquecidas do mar que ruge à volta, porque uma grande muralha cercava toda a ilha.
Entretanto, aparecem na ilha uns arautos da “liberdade” e dizem aos seus habitantes: ”Porque deixastes que vos rodeassem com estes muros? Não vedes que não podeis correr e vaguear à vontade, se vos apetecer? Deitai abaixo essas barreiras e sereis senhores do vosso destino”. Assim fizeram.
Um dia um turista desembarcou naquela ilha e viu toda a gente muda e queda no centro da mesma: não brincavam, não dançavam, com medo de cair ao mar…
As normas a as referências ajudam as pessoas a ser livres e felizes. A permissividade e a ausência de valores, pelo contrário, tornam-nas escravos de coisas descartáveis. Escravos. Que outro nome dar a quem só se atreve a vestir o “que está de moda”? A quem só compra os electrodomésticos ou as cortinas “que se usam”? A quem morre de vergonha por não possuir um automóvel “topo de gama”? A quem exibe sinais exteriores de riqueza, mesmo estando carregado de dívidas?
Estas coisas deixam-me nervoso, mas não me tiram a alegria nem a esperança. É que, se há crianças para quem a Primeira Comunhão é realmente a última, e jovens que fazem o juramento de fé perante o Bispo para nunca mais porem os pés na igreja, também há muitas pessoas que não confundem a fé com um verniz para exteriores. Muitas crianças, jovens e adultos transpiram valores por todos os poros. Para não falar de casais que vivem um amor sem prazo de validade como os iogurtes; ou professores, médicos, políticos, empresários, que no serviço da sociedade apostam a sua alma e todas as suas pedras preciosas
Ainda há muita beleza e autenticidade neste mundo. Folgo com isso. Mas tenho pena dos escravos modernos. É que de escravos felizes não reza a história.

Abílio Pina Ribeiro, cmf

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