Eu pecador me confesso e arrependo de ter despedido de mãos vazias uma rapaz que me pedia dinheiro para voltar para a sua terra e uma sande para matar a fome. Quando ele já ia longe, senti uma pancada no coração, pois um bocado de pão não se nega a ninguém.
Não imaginam como gostaria de encontrá-lo de novo, para reparar o meu pecado e lhe pedir perdão. Perdão por querer ter sempre a certeza matemática de que os mendigos não me enganam, eu que estou de pé atrás por já ter sido enganado uma porção de vezes. Perdão por me limitar com frequência a uma indignação passiva perante as injustiças.
Com efeito, arrepio-me ao ler o relatório anual das Nações Unidas sobre a pobreza e o desenvolvimento dos povos. O caso não é para menos. Uma criança dum país industrializado consome, ao longo da sua vida, tanto como cinquenta crianças num país em desenvolvimento. A fortuna dos três homens mais ricos do planeta ultrapassa o Produto Interno Bruto de quarenta e tal países menos desenvolvidos, onde vivem seiscentos milhões de seres humanos.
Investe-se mais em investigar “o amadurecimento retardado do tomate” do que o remédio para curar a sida. A compra de alguns jogadores de futebol equivale a um quarto do orçamento anual do Chade.
Poderíamos ficar aqui o dia inteiro a apontar outros dados vergonhosos. Oitocentos e cinquenta e tal milhões de pessoas sofrem de fome crónica; uma em cada seis vive abaixo do limiar de pobreza. Mesmo na União Europeia, vivem setenta e oito milhões em risco de pobreza; em Portugal cerca de vinte por cento da população.
Mas não vale a pena chorar sobre o leite derramado nem rasgar as vestes com indignação inútil. Temos, sim, de sacudir a consciência e passar à acção.
Martín Descalço observava que a frase: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus” impressiona mais os camelos do que os ricos.
De tão afeitos a estes números, vamos ficando anestesiados. Fazemos campanhas de palavras, deixamos cair algumas migalhas, mas nada que desestabilize a nossa situação nem nos comprometa muito.
Para nos ajudar a recuperar, por outros caminhos e outras linguagens, o sentimento da realidade maluca do mundo de hoje, o teólogo Jon Sobrino fala de três pecados. O primeiro tem o nome de insulto aos pobres. Se já não reagimos parente as palavras “injustiça”, “neo-liberalismo”, “dívida do Terceiro Mundo” e outras, pode ser que nos deixemos comover por esta expressão mais brutal e primária: o insulto aos pobres. Não constitui um verdadeiro insulto o facto de um cidadão dos Estados Unidos consumir o mesmo que cinquenta habitantes do vizinho Haiti? O abismo entre os Lázaros que só comem migalhas e os Epulões que arrotam o dia inteiro não é realmente insultuoso e aberrante?
A ignorância culpável constitui o segundo pecado. Tempos houve em que os dados do Programa das Nações unidas para o Desenvolvimento (PNUD) não eram publicados nalguns países, devido ao escândalo que provocavam. A que vinham esses estraga-festas!? – perguntavam as pessoas de bem e as autoridades. Acho que o conhecimento desses documentos deveria ser obrigatório nas universidades, colégios e escolas. Se fossem tema de homilias em todas as partes do mundo, os padres não andariam longe do estilo dos profetas e de Jesus de Nazaré.
O terceiro pecado pode chamar-se zombaria, caçoada, chacota. É a sensação que temos ao ouvir cantar as maravilhas da globalização. Com a moderna tecnologia encurtaram-se infinitamente as distâncias entre a Bolsa de Nova Iorque e a de Abdis Abeba, mas nem por isso mil e quinhentos milhões de pessoas deixaram de viver com menos de um euro por dia. Globalizou-se a riqueza – e globalizou-se a miséria.

Insulto, ignorância, zombaria. Poderíamos acrescentar outra palavra terrível: roubo. A Instituição “Mãos Unidas” utilizou-a sem medo: “A fome, juntamente com a pobreza, é a maior violação dos direitos de que, teoricamente, desfrutam os seres humanos desde o seu nascimento. É um roubo, consentido e às vezes fomentado, da dignidade e das possibilidades de desenvolvimento das pessoas”. Os países pobres são esbulhados das suas matérias-primas e das suas esperanças.
Mas que autoridade tenho eu para me indignar deste modo, eu que nem sande dei a um rapaz faminto?

Abílio Pina Ribeiro, cmf

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